quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Um gesto

Fotografia de Anja Bührer


Diante de ti, estou calada e imóvel. Se me fizesses uma pergunta, talvez fosse fácil responder, mas dizes nada. Se me anunciasses um acontecido, eu poderia tecer um comentário vazio qualquer. Se me cantasses um hino, eu poderia me esquecer de que estou diante de ti, calada e imóvel.

Sei que se eu fizer um pequeno gesto, talvez uma palavra se defina e chame outra. Esse gesto, eu farei? Se o fizer, continuarás imóvel diante de mim, bem sei, mas há de absorver-me em teus poros e, então – ah! – não poderei mais retirar de ti o que de mim se projetar e deverei seguir reconciliando-me comigo. Comigo, por ti. Revelando-me em ti.

Olho a paisagem que se basta sem palavras. Por que não basto também eu a mim?

Se fosse este um primeiro encontro, justificar-se-ia o receio de projetar-me no vazio. Se fosse este o segundo ou terceiro encontro, ao menos o gesto esperado me sairia. Mas é o quarto, é o quarto...

Sendo assim tão difícil ainda hoje, esperemos mais um pouco, sem aversão nem conformidade. Enquanto espero, mergulho nos espíritos que repousam em minha estante. Como falam em seu silêncio grande. Parece que já disseram tudo, menos o que se agita em mim perante este vazio que parece ser teu.

Nunca antes assim e por tanto tempo, uma folha em branco me foi tão angustiante.




segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Dois haicais


Aquarela de Victor Octaviano


Alto-mar

No alto  mar  mar
          a      a
Fumaram todas as folhas
De livro arbítrio.




(Des)cobrimentos

Muito segredo há
Sob as malhas da rede
Coberta de sol.