quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Acorde, palavra


Picasso: Grande Baigneuse au Livre


Quem é essa que tem medo
De um livro ainda fechado?
Quem aquela que o abre
Sem recuar ante o achado?
Quem mergulha e relata
Com gozo os seus pecados,
E não pontua seus contos
Nem depois de terminados?
Quem aquela que oferece
Sua língua em leituras
E quer devorar faminta
Nossas orelhas astutas?
E aquel’outra que não fala,
E pede em olhos ardentes
“Lê pra mim, Sê a palavra!”
Olhando a estrela cadente?
Morreram todas em folhas
De solidão que escolheram
O dia ainda era um prelúdio
E os sopros entardeceram.
Oh, meu Maestro, permita!
Aceite que eu repita
Meu ensaio e minha prova
De canção que quer ser dita.





sexta-feira, 15 de julho de 2016

Um rio na sala de estar


Pintura de Piet Mondrian - 1911


No Egito há um rio escuro
Em Goiás há um rio turvo
No inferno há um rio cinzento
E no céu
Há uma tinta azul
Que faz rio emoldurado
Na tela de sua sala.

A tinta azul esparramada
Recebe outra verdíssima
Recebe o branco da espuma
E um muro
Em tons de rosa e de sangue
Pincelado sobre a água.

Eu tenho aqui outra tinta
Presa do lado de fora
Também fria, porém arde e
Com ela
Vou sombrear uma porta
De entrada no cor-de-rosa.

De lá saltarei no azul
Separado por um fio
Onde quer ser céu e onde quer

Ser rio.


*Poesia publicada no blog Psicose da Nina, em 17/01/2016