sexta-feira, 2 de outubro de 2015

M'olham


Pintura de Shelby McQuilkin

Mergulho as mãos em letras frias
Tiro-as da solidão
Ao fazermo-nos palavras
E as olhas
E m’olhas

Mas a sede não acaba
— Pudera! — alguém diria
— Só puseste as mãos à beira
Não... te enganas
Caí inteira

Culpa a língua (essa danada!)
Que é quem me limita.
Vou com os versos quebrantados
Que falam
E falham

Sinestésicos chegamos
Qual rio na terra
Esparrama-se em (a)braços
Faltosos
Que m’olham






terça-feira, 11 de agosto de 2015

Antes do anoitecer


Imagem do fotógrafo russo Misha Gordin, via blog Meia Seis


 Rompi-me a vida uma vez

Para nunca ma(i)s, voltei.

Rompi-a eu de novo

Em ondas de mar revolto

E ainda outras vezes mais.

Refrega inevitável

Face a face comigo

Debaixo da mesma luz

Compondo a mesma sombra -

Pássaro pincelado

Em quadros separados

Qual versos de poesia

Em apelo constante

De rompimento e abraço.

Adeus!

Golpeiam-se-me as asas,

Vou partir-me em funeral

Antes do anoitecer.

Aeronauta que sou

Contemplarei a terra

Sobre mim e lançarei

Os dados mais uma vez.




quarta-feira, 15 de julho de 2015

Piracema


Nice Soleil Fleurs - Marc Chagall



Nada
De nadar para fora
Nada
De sair do curso a essa hora.
Nada
Rio acima, à exaustão
Nada
À minha água rasa, como
Se fosse a nossa alcova:

Esconde-te e desova.




domingo, 10 de maio de 2015

Feito asas




O voo das borboletas - Paul Klee



Neste dia eu queria
Dar-lhe, mamãe, umas flores
Pequenas e delicadas.
Chegando aqui, já não estavas.
Quis dar-lhe palavras e quis
Que nada me impedisse.
Joguei-as ao alto e foram
Feito folhas no outono,
Mas as quero feito asas.
Não as da nave que me trouxe
Após a tua partida,
Mas asas
Que pulsassem, confirmassem:
“Ela ouviu, sorriu e disse...”
- Disse o quê? O que ela disse?
“Que andas muito sisuda,
Que deves sair pra brincar,
Que até a angústia mais aguda
Tem sua hora de acabar”.



quinta-feira, 7 de maio de 2015

Madrugada



Pintura de John Atkinson Grimshaw



É madrugada,
Não se vê quase nada.
Ouço animais da noite
E sinto o vento gelado.
Silêncio! É mais prudente,
Porque é madrugada
E vemos quase nada.




sábado, 11 de abril de 2015

Espectro mudo



Musician Angel - Rosso Fiorentino


Língua desconhecida
Em cordas de contrabaixo
Pareceria até uma canção de amor
Se houvesse quem a cantasse

Fala que não se traduz
Em cordas de velho alaúde
Seria até meio de contemplação
Se houvesse quem a escutasse

Eco do que não é dito
Vibrando em cordas vocais
Pareceria até uma brincadeira
Como se houvesse mais alguém
Quem    quem    quem





sexta-feira, 20 de março de 2015

Arqueiro


Pintura rupestre - imagem do Google


Flecha que me adentra,
Quem é o seu arqueiro?
Lançou-a ele a mim ou
Cruzei o seu caminho?

De novo a arranco fora
E sangramos qual poesia
Que se escreve a exaurir-me
Para ser plena sem mim.



sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Bordados de Guadalupe


Combinação das imagens da Virgem de Guadalupe e de Frida Kahlo, importantes figuras femininas do México
www.etsy.com



Quando a minha dor me fala
Vai me alinhavando, fere e
De alguma morte, me salva.
Sigo, apesar dela aqui
E ela, a pesar em mim,
Transpassa-me, remendando
As minhas asas de pano.

Tenta, dor, nas longas asas,
Dar pontos sem causar danos
Não posso mais arrastá-las.
Eu vou pra longe, até onde está
A menina de Guadalupe
Das astecas fiandeiras
Da pele de sol vermelha.

Guadalupe, a mãezinha,
Vai refletir-me em seus olhos
Vai aquecer-me num manto
De algodão e rosas bordadas
Tão reais que até espinham
Tão reais que inebriam
Com cheiro de flor e acalanto.