quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O despir-se do poeta


The Tree of Life - Gustav Klimt

Era um dia quente. O homem sem nome não precisava de nada, porque ele tinha uma árvore em que se recostava e a sombra dela que o arrefecia.

Quando o dia não estava quente, também assim ele achava que de nada precisava. Tinha abrigo se houvesse chuva e tinha os pássaros para aliviar-lhe alguma mágoa. Ele tinha ainda o farfalhar das folhas que lhe falavam às orelhas. Ao olhos, nada lhe falava.

As folhas contavam histórias, ora brandas, ora frias, a depender da força do vento e do calor de cada dia. Certa vez cantaram a ele uma poesia e aquela prosa ritmada diferente lhe bateu.

O homem sem nome achou uma beleza a toada de palavras, mas intrigou-se ao pensar no vento, seu velho conhecido, que agora todo novo se apresentava. Onde aquela voz antes se escondia? Dali em diante, ao roçar as folhas, o mesmo poema o vento lhe repetia. Tentando entender o que acontecia, o homem abriu os olhos – imensidão – era isso o que ele via. E do nada precisar, agora só uma coisa queria: a poesia.

Materializar-se-ia ela um dia?

A resposta chegou pela arrumação das palavras que lhe vinham:

Eu existo ao te tocar
E ao portar o que te esforças
Por tragar.
Se me sentes,
Sou em ti
e
Já parti
Para onde não revelo,
Espalhado entre as vidas
Tantas que levo.

Ao ver a poesia vestida de palavras, despiu-se o poeta, que assim nem se sabia. Aquela paz, que era quase como a morte, não existia mais. Tudo por causa de um e isolado na construção. Tantos quereres agora – um nome, por exemplo – mas o e, insistindo em se mostrar, muito o importunava. O homem dormia, acordava e ao ser revisitado pela trova tão pequena, lá estavam versos acima e versos abaixo de um e abandonado, supremo em seu espaço, todo seu e solitário.

Contudo, voltava sempre à sua árvore e pensava, como Caeiro, que só para ouvir passar o vento a vida já lhe valia.


sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

...e os meus olhos



De um passeio... há alguns anos
 




Os meus olhos
Cansados de movimento
Fecharam-se lentamente
Encontraram borboletas
Amarelas
Lançaram-se às asas delas
Foram a campos mais quietos
Mais calmos e muito menos
Solitários