quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Peso relativo


Ilustração de Don Kenn


Verdadeira - mente

Sou solidão

E convivo muito bem

Com meus fantasmas




terça-feira, 18 de novembro de 2014

Poesia ao espelho


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Chega-te a poesia
Pelos ditos indizíveis
Das voltas, dos sons e
Pausas

Toca-te a poesia
Pelo encontro de um olhar
Mediador. Sabedor
De ti

Vai-te a poesia
E vais junto, para sempre
Para nunca novamente
Seres inteiro
Teres certeza ou
Lugar.




quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Do que me ultrapassa



A Woman Reading - Claude Monet


Deito-me de novo
Entre as mesmas rosas
E não sei se viverei

Mais que elas.




quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Caleidoscópio


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Foi à cabeça, o coração
Com espelhos coloridos
— Alto lá! Nada de tirar
Minhas coisas do lugar —  mas
Já é tarde, o dia declina e
Vencida, ela arrasta o trinco
Da porta que a prendia.

— Quero este azul com tecido
E o amarelo com vestígios
De sol, pra que não te escondas.
Quero verdes em tons vários
Pra que eu pouse e me recolha
Para ouvir o invisível
No movimento das folhas.

— Dá-me também este vermelho
Que nele eu o sinto pulsando
Dele eu preciso pra vida
Sinto-me recomeçando.
E naquele outro, o que há? —
Vê-se um marcador do tempo
Com a hora da partida.

— Que vidraça desbotada!
Por que a trazes? É tão dura.
Não quero esta. Obrigada.



terça-feira, 29 de julho de 2014

Ei, você!


Crianças Brincando - Cândido Portinari


Era noite, noite escura
E as palavras dançavam na rua.
Bem podia ser mentira,
Esse desatino das meninas.

Pois já é dia, dia nascido
E o poema – olha só – está perdido.
Porque as palavras, sim, elas
Saíram em silêncio pela janela.

E agora, minha poesia?
Não sei se está no alto mais alto
Se cá dentro, se no fundo
Ou lá fora, perdida no mundo.

Em sua falta, inspiro e vou                              
Mergulho a procurar e procurar
E falta-me... Falta-me ar
Volto, então, ligeiro e me confundo:
Onde o alto? Onde o fundo?

No fundo, tudo é quase a mesma coisa

e
   mersão
i

No fundo, sou eu criança
Querendo brincar, a convidar

e
   você!
i,




quinta-feira, 24 de julho de 2014

Você já ouviu um livro?



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Os audiolivros estão sendo minha companhia quando estou ao volante e eu quero contar pra você sobre esta minha experiência.

Você pode ler o relato no blog Vida Complicada, da escritora Camila Monteiro - que anda sumida, mas está sendo procurada por investigadores altamente qualificados e logo vai aparecer.





segunda-feira, 19 de maio de 2014

Os Olhos do Bilheteiro




Imagem: releitura da obra Cabeça de Mulher, de Picasso.
Fonte: www.mestresdapintura.com.br



No caminho azul-esverdeado,
Um bilheteiro solitário
Tem olhos a perguntar:
Vais ficar?
Não.
Então, passa.

Um passo, outro passo e paro
E os olhos do bilheteiro
Lançam nova pergunta:
Vais seguir?
Não.
Que lástima.

Se parte de mim se prostra
Se a outra parte tem asas
Quebro-me se fico ou passo
Parto-me.
Vou
E sigo aqui.

Avante vou em pedaços
Envolta em braços ausentes
Carregando aquele olhar
Ora castanho
Ora verde-mar.






quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O despir-se do poeta


The Tree of Life - Gustav Klimt

Era um dia quente. O homem sem nome não precisava de nada, porque ele tinha uma árvore em que se recostava e a sombra dela que o arrefecia.

Quando o dia não estava quente, também assim ele achava que de nada precisava. Tinha abrigo se houvesse chuva e tinha os pássaros para aliviar-lhe alguma mágoa. Ele tinha ainda o farfalhar das folhas que lhe falavam às orelhas. Ao olhos, nada lhe falava.

As folhas contavam histórias, ora brandas, ora frias, a depender da força do vento e do calor de cada dia. Certa vez cantaram a ele uma poesia e aquela prosa ritmada diferente lhe bateu.

O homem sem nome achou uma beleza a toada de palavras, mas intrigou-se ao pensar no vento, seu velho conhecido, que agora todo novo se apresentava. Onde aquela voz antes se escondia? Dali em diante, ao roçar as folhas, o mesmo poema o vento lhe repetia. Tentando entender o que acontecia, o homem abriu os olhos – imensidão – era isso o que ele via. E do nada precisar, agora só uma coisa queria: a poesia.

Materializar-se-ia ela um dia?

A resposta chegou pela arrumação das palavras que lhe vinham:

Eu existo ao te tocar
E ao portar o que te esforças
Por tragar.
Se me sentes,
Sou em ti
e
Já parti
Para onde não revelo,
Espalhado entre as vidas
Tantas que levo.

Ao ver a poesia vestida de palavras, despiu-se o poeta, que assim nem se sabia. Aquela paz, que era quase como a morte, não existia mais. Tudo por causa de um e isolado na construção. Tantos quereres agora – um nome, por exemplo – mas o e, insistindo em se mostrar, muito o importunava. O homem dormia, acordava e ao ser revisitado pela trova tão pequena, lá estavam versos acima e versos abaixo de um e abandonado, supremo em seu espaço, todo seu e solitário.

Contudo, voltava sempre à sua árvore e pensava, como Caeiro, que só para ouvir passar o vento a vida já lhe valia.


sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

...e os meus olhos



De um passeio... há alguns anos
 




Os meus olhos
Cansados de movimento
Fecharam-se lentamente
Encontraram borboletas
Amarelas
Lançaram-se às asas delas
Foram a campos mais quietos
Mais calmos e muito menos
Solitários