quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Loba


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Esmeralda, mulher independente e equilibrada, não imaginava que uma brincadeira de palavras transformaria sua vida numa saga obsessiva de anjinhos assustados e ávidos por emoções.
Tudo começou em uma manhã de domingo, numa conversa descontraída de Esmeralda com uma amiga ao telefone, no momento em que a família estava reunida para o almoço na casa da Vó Maria. Esmeralda estava a poucos meses de completar 40 anos e falou à interlocutora que estava muito entusiasmada com esse aniversário, que ela considerava ser mais que especial, argumentando, com ênfase, que naquele ano viraria loba.
Belinha, então com seis anos de idade, distraída no chão, onde brincava de vestir e pentear bonecas com a prima Suzana, ouviu aquela frase horrível. Virou lentamente a cabeça em direção à tia, que parecia muito animada. Olhou para a prima, que continuava com o mesmo envolvimento no cuidado com as filhinhas de brinquedo.
Uma criança de seis anos já se dá conta de que os livros de contos de fadas estão lá no mundo da fantasia, mas a tia estava ali, em pé, conversando, e parecia estar falando de algo muito real. Belinha tinha certeza do que havia escutado: “─ Eu vou virar loba!”. E a transformação da mulher em uma loba passou a povoar os pensamentos de Belinha. Os pelos dos braços e das pernas crescendo, os cabelos volumosos e emaranhados, os dentes e as unhas enormes e os olhos firmes e fundos olhando os seus. A tia a reconheceria como amiga na hora fatídica? Era a pergunta que Belinha se fazia.
Desde aquele dia, Belinha ficava apreensiva sempre que via a tia Esmeralda, mas continuava gostando de ir à casa dela. Observava cada passo da loba, na expectativa de ver algum sinal da mutação, quem sabe ouvir um longo uivado. A família já havia notado que Belinha ficava diferente quando estava com a tia Esmeralda e que ultimamente estava sempre a rodeá-la quando tinha oportunidade.
— Belinha admira muito você, Esmeralda. Sempre que vamos a algum lugar, pergunta se você vai estar e, ao vê-la, fica observando calada todos os seus movimentos — relatou a mãe, achando graça.
Esmeralda, orgulhosa de se saber admirada, redobrou os cuidados à criança, mas para Belinha esse foi um mal sinal. Por que será que a tia estava agora tentando agradá-la mais do que nunca? Seria alguma tentativa de sedução para abocanhá-la no momento oportuno? Era preciso fazer alguma coisa, tinha certeza, mas não achava conveniente relatar o caso à mãe ou a algum adulto. Poderiam querer prender a tia num canil, no zoológico ou num laboratório para estudos científicos.
Os olhares fixos e indisfarçáveis de Belinha começaram a intrigar a tia. Não se tratava de uma admiração, ela já percebera, e já estava tentando entender a menina. Começou a pensar que Belinha estava passando por algum distúrbio mental e decidiu que iria alertar a mãe.
O pavor só crescia no coração de Belinha, que sentia quase o ar a faltar quando pensava na Tia Esmeralda. Falou então com a prima Suzana, recomendando que pensassem num jeito de fazer alguma coisa, mas com o cuidado de proteger a tia, que era muito “gente boa”. O dilema, então, virou um problemão, porque Suzana contou para o Paulinho, que revelou tudo para a mana Tainá. E o cordão seguiu entre a meninada, fazendo a história mais arrepiadora cada vez que era recontada. Rebeca, já adolescente, entendeu direitinho a confusão, mas preferiu apimentar a fantasia:
─ Isso existe, sim. O tio de uma amiga minha também virou lobo. Foi horrííííível, gente! ─ relatou, amando ver o pavor nos olhinhos arregalados das crianças.
E acrescentou:
─ Com certeza, ela já está virando loba nas noites de lua cheia, porque ontem eu vi o olho dela mudando de cor.
Ah... bastou isso para meninos e meninas passarem a se empenhar mais para ver também alguma coisa, ficavam observando os olhos da Esmeralda, tentando disfarçar, em vão, a curiosidade.
Esmeralda começou a perceber que o comportamento de Belinha se repetia em outras crianças e a mulher estava já se sentindo incomodada com tantos pirralhos curiosos, cochichos e indagações mudas em cima dela. Comentou o fato com a irmã, uma prima e o cunhado, mas ninguém concordava que houvesse algum comportamento estranho por parte das crianças, apenas que poderiam estar fazendo alguma brincadeira com ela, já que sempre gostou muito de divertir-se com a meninada em piadinhas, passeios e farra.
Esmeralda, coitada, temia estar desenvolvendo alguma obsessão, já que apenas ela percebia estar sendo, de certa forma, perseguida. Em todos os lugares onde havia criança, ela já ficava desconfiada. Da parte dos meninos e meninas, qualquer olhar mais firme da tia traduzia-se em sinal de ataque iminente e eles tratavam logo de sair de perto dela.
Semanas e meses se passaram e nada de Esmeralda virar loba. Um dia, Belinha reparou que as unhas dela estavam bem maiores. Daniel completou que estavam sujas, provavelmente por causa de alguma caçada na noite anterior. Os cabelos, todos concordavam, já não se pareciam mais com cabelo de gente, porque estavam evidentemente mais espessos, embora apenas algumas crianças tivessem tido a coragem de tocá-los... só que, ao mais leve contato, a mulher tinha reações muito rápidas – demonstrando que já havia desenvolvido bastante os seus reflexos. Mas Belinha jurava de pés juntos que a tia não era uma loba má. “Se fosse má, já teria devorado a gente”, assegurava, com o coração aflito, tentando acalmar os amigos.
Que ironia! Há mais de um ano, Esmeralda vivia a ansiedade de se tornar uma mulher mais ousada, selvagem, alerta e aguçada nos sentidos, menos racional e coisas do tipo. A empolgação era tanta, que de tempos em tempos ia noticiando: no ano que vem vou virar loba..., este ano eu viro loba..., mês que vem..., semana que vem... amanhã... Diante de tantas anunciações, não é que a história estava mesmo ocorrendo!? Esforçava-se para não dar uma grande e repentina rosnada às crianças, que não paravam de incomodá-la.
Finalmente chegou o grande dia! Esmeralda até se esqueceu do acossamento e, para celebrar a entrada na nova era, uma festa, para comer e beber com os amigos, celebrar o aniversário que, para ela, tinha um simbolismo pra lá de interessante. Nada de extraordinário aconteceu naquele dia, embora fosse inclusive uma noite de lua cheia, mas a senhora estava adorando alimentar aquela fantasia lupina e gritou a todos:
─ Agora eu sou loba!
Em meio aos risos e aplausos dos adultos, Belinha e sua turma arregalaram os olhos fixos em Esmeralda. A perplexidade foi tanta que fez “cair a ficha” da tia, que se viu uma mutante nos olhos das crianças. Vieram à sua lembrança as tantas perseguições que tinha sofrido nos últimos meses.
 Dobrou o corpo com as mãos nos joelhos, olhou os rostinhos das crianças e caiu na gargalhada. Então, falou:
- Gente, é só de mentirinha...
O espanto, então, deu lugar à frustração. Acabara a graça do terror.
Esmeralda não era mais perseguida. Os meninos e meninas cresceram e sempre se lembravam da loba. Passaram a ver Esmeralda como uma mulher enigmática, que às vezes ainda se reunia com a família e outras vezes saía com um grupo de amigos. Com frequência, ela desaparecia. Dizia que tinha adquirido o gosto da reflexão, em caminhadas solitárias pelas ruas da cidade.
Um dia, saiu para um passeio nas montanhas e nunca mais voltou.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Quando chegas




Imagem do site garatujasfantasticas.com - A Menina e o Céu



Quando chegas, poesia,
De uma alma esburacada,
Transbordando-se em chagas,
Sangram em mim tuas lágrimas.

Quando chegas por aqui,
De outras mãos e suas dores
Dá-me as palavras forjadas
(Sabe-se lá dos porquês).

Quando chegas, poesia,
Aperta-te em meu peito
E sais em um suspiro
Por meus olhos perdidos.