segunda-feira, 16 de abril de 2012

Compartimentos

Meu relógio-cuco foi um presente de meu pai, que o ganhou de um ex-patrão alemão, que o guardava numa caixa, que guardava outras histórias. Ele tem dois passarinhos: um sempre foi tímido (só saía de vez em quando) e o outro cantarolava ao público a cada 15 minutos. Hoje, os dois andam caladinhos...

Meu tempo estava guardado em compartimentos. As frações dos dias e suas surpresas agendadas organizavam-se em espaços próprios. Numa gaveta, a casa; em outra, o trabalho. Uma para os amigos, a família, os amores; outras para a poesia, a escola, as ruas, os livros e os jornais. A poesia e seus papéis ficavam sempre apertados, nunca couberam em seus espaços e acabavam invadindo as outras gavetas. Levavam e buscavam alguma distração em todas.
Um dia, foi baixado um decreto: “Fica proibido distribuir o tempo em departamentos”. Abriram-se minhas gavetas e tudo caiu no chão. Misturou-se tudo, pessoas e miragens, cartas e notícias. Misturaram-se as letras, não havia mais poesia. Meu relógio-cuco parou, porque ninguém lhe dava mais corda. Nem eu. É fato que os passarinhos eram mesmo inconvenientes, avisando sempre o compasso do tempo. Mas, serem trancafiados daquele jeito, condenados a não mais sair nem pela janelinha, foi muita crueldade.
Tudo no chão esparramado
E os passarinhos presos, coitados!
Mas de nada adiantaria libertá-los,
Eles nunca foram algo mesmo real,
Nada além de dois pedacinhos de pau.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Ninho doce

                                                                            Imagem: fottus.com

Ah, quem me dera,
Um poema doce
Mel caindo, dos
Favos à boca.

Quem me dera, sim,
Falar com a força
Dos braços dos jovens
No canavial.

Ser doce e forte:
Criança que ri
Quebrando-te a dor.
Ah, quem me dera!

Palavras de barro,
Gravetos e ramos,
Escrevendo um ninho,
Quem me dera agora.
                                                                                                           
Ninho doce, doce,
De passarinhos
Cantando em festa.
Ah, quem me dera!

*Poema feito para a amiga Nédua Ferreira e para o blog dela, ninhododoce.blogspot.com. Recomendo a visita, para que conheçam o seu trabalho, um primor.