quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Poema em construção

                                   

Sou um poema em construção
Do poeta de infindável escrever,
Que poderia ter-me feito
Poesia concreta,
Mas me escreve versos soltos,
Em rascunhos.

Sou um poema que seria,
Que poderia, falaria.
E sendo assim inconclusa,
Rabisca-me todos os dias,
Pedindo que eu cante uma poesia
Que lhe seja mais bonita.

Ah, meu poeta, não desistas
De em mim escrever-te,
Embora saibamos ser eterna
Essa minha imperfeição,
Posto ser também sem fim
A tua inquietação.


segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Bailarina

Na grande praça, ela dançava.
Descalça na grama, soltava os braços e dava largos passos, exibia saltos e rodopios. Nada de improviso e também não tinha bebido, mas embevecia o rapaz que, observando aquilo, abaixou o livro que lia, tirou da face os óculos e toda a paisagem se alterou, o canto dos pássaros se calou e a algazarra de crianças se acalmou. Morria e renascia o cenário em que ele se inseria e onde agora só existia a moça que ele via.
Na grande praça, ela dançava. A princípio ele pensou que se tratava de mulher ensandecida. Mas a  saia longa e branca passava por ele com tanta graça, que a sandice em juízo se fazia. Ele tinha um compromisso? Não sei, mas a hora já passou.                                    
E ela dançava. A fronte em riste, para o alto à direita. Os dedos alongados querendo pegar o inalcançável. Ritmada, voltava-se ao horizonte e descia o olhar ao chão. A bailarina, entre as plantas, sumia e reaparecia. Ao jovem voltou o tempo das árvores em que ele subia e onde se escondia. Naquele instante desejou possuir a dançarina, para que a infância e a velhice, que ele ainda não conhecia, se transfigurassem num dia, aquele dia de fantasia.
Na grande praça, ela parou. Parou em frente ao rapaz extasiado no banco. Olhos nos olhos, ela ofegante, estendeu a ele a sua mão. Era um convite à dança, mas ele não foi. Preferia continuar expectador solitário. Deleitava-se assim, nos movimentos dela e ela, num sopetão, queixo ao alto, abriu os braços de novo como se fosse alçar um vôo, dobrou a perna esquerda, pôs o joelho diante dele e a grande saia não parava de mostrar-se viva, no vento frio que fazia.
Ela ergueu os braços unindo as mãos, ele fechou os olhos e o livro. Reabriu os olhos e, então, a vida na grande praça foi retomando sua atmosfera própria que havia desaparecido no minuto de uma poesia, aquela que ele lia.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Cerca

                                                                     
         
Ser que em si cerca
O chão já pisado
Protege-se e cuida
Das dores de sempre
Da asa quebrada.



 

Imagem: portugues.torange.biz