quinta-feira, 23 de junho de 2011

Só Carola


                                                              Pintura de Tolouse Lautrec            
                                           
Ao chegar à porta de entrada da casa do amigo, onde se encontraria com outros amigos e com os amigos dos amigos, Douglas parou. O som discretamente elegante de seu mocassim brilhante e negro silenciou-se. Os dois ou três segundos em que se postara ali, diante de todos, fizeram-se muitos minutos mais em seus propósitos de mostrar-se e sentir-se observado. Não era esfuziantemente notado como imaginava estar sendo. Mas era assim, em sua fantasia de astro, que vivia e estufava-se.
Só Carola parecia envolver-se na musicalidade que Douglas apresentava nos passos e na fala. Mas a ele não importava saber quem e quantos verdadeiramente se admiravam de alguma coisa. Seu mundo e atenção giravam em torno de sua própria imaginação e de quase mais nada. E, olha, que aquela sua cabeça o fazia de tal forma auto-confiante que qualquer comentário negativo ou jocoso contra sua pessoa sequer era por ele percebido. Mas se algum elogio pipocava a dois metros de distância... caía como dardo mirado nos ouvidos de Douglas e, aí, ele se orgulhava, quase sempre fingindo que não estava a escutar nada.
Suas fantasias de majestade cumpriam-se a cada instante. Estava certo de que já estivessem todos a sentir sua falta e que até haviam ficado meio desarranjados com a sua aparição. Afinal, não era um qualquer aquele que acabara de entrar. Percebia que as mulheres já se aproximavam e que um colega chegava para lhe servir uma bebida. Mas só Carola acreditava no mundo criado por Douglas. Acreditava que todos o considerassem assaz importante e elegante e que todas as mulheres suspirassem por ele – como ela. Carola se esforçava para conseguir continuar ali, porque ela não gostava tanto de gente ou gostava e temia em demasia, mas o fato é que se incomodava de estar com tantas pessoas. Entretanto, sempre embrenhava-se no grupo para estar com Douglas, aquele que fazia de conta estar com todos, mas que convivia somente consigo próprio e amava-se sobremaneira.
Carola achava todos feios e pedantes. Sempre via nos rostos e nos ambientes, um falso glamour. E em Douglas, não. Em Douglas via expansividade sincera. Ele, sim, a ela parecia ser homem fino de verdade. Cada gesto dele, cada palavra bem entonada, fazia brotar em Carola o devaneio de um enredo romântico. Ela não dizia nada, para não revelar a ele que era tão medíocre quanto todos os outros, com a diferença de que não ficava a fingir ser mais. Não se arriscaria a botar máscara para estar diante de Douglas. Afinal, acreditava que um dia se conheceriam de verdade e não ficaria bem inventar aparências.
           Douglas falava muito das novidades da moda, das agendas de gente importante e de carros. Não enganava a ninguém tanta superficialidade, somente a Carola, em sua esfera de mudez envolvida num espaço cheio de vozes, risadas e tilintar de copos e talheres.
E lá dentro da cacholinha dela, tanta coisa diferente acontecendo, ela se escancarando e se escondendo entre espelhos. Poderia se chamar Maria e puxar os homens pelo braço, falar-lhes coisas interessantes; poderia se chamar Custódia e comprar falos de silicone, perfeitos, secretamente; poderia se chamar Amélia e conformar-se numa casa arrumadinha, com tapetinho na entrada dizendo ‘bem-vindo’; poderia se chamar Divina e cometer loucuras, ameaçar, avançar e – caso algo desse errado – gritar, internar-se e acalmar-se; poderia se chamar Esmeralda, ter olhos de jóias raras, receber flores e desprezar amores; poderia se chamar Vilma e desejar ter Maria ou ser Sofia e questionar-se até um dia resignar-se; poderia se chamar Paulinha e falar bem manhosinha e ser sempre menininha dos seus homens papaizinhos; poderia se chamar Simone e exigir amor livre e respeito, falar firme e com razão. Mas era só Carola, simplesmente todas elas, sendo só, só Carola.
E Douglas, quem era? “Quem é ele?”, ela queria saber e questionava-se por quê. “Por que não chega mais perto? Por que não lhe lança um oi”? Talvez ela não quisesse de verdade sabê-lo, para não correr o risco de deixar de ser só, só Carola.
E assim esses dois passaram aquela e passam outras festas. Passam assim a vida. Ela a segui-lo, ele a enamorar-se. Ela pensa que sofre e no sofrimento fantástico vive suas múltiplas partes. Ele pensa que brilha, entre tanta luz se cega, entre as vozes internas se ensurdece e, no escuro, fica a platéia em silêncio para o espetáculo começar. A solidão não é sempre o fim de quem ama, como dissera o poeta, ela pode ser o gozo de muitos que só se encontram nela.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Dose de poesia

Estonteada,
Cambaleando vou.
Olhos perdidos
Por outras bandas vão.

Parece-me, sim,
Que engoli umas palavras.
Eu bebi uma poesia
Em dose desmedida.

Ela deixou-me
Entorpecida.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Logic(a)batimento



Para fazer poesia, um

Para viver o amor, dois

O receio de perder-te, três

Toda a minha saudade,

Conjunto vazio.

Como vazio é o luto

E vazia, a melancolia.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Basquetebol


No molejo do corpo, o atleta
Domina o planeta
Girando em sua mão

Faz que vai para a direita
Corre, quicando a bola,
Matreiro pela esquerda, então

Bola no chão
Volta, volta pro chão,
Deixa o adversário na mão

Saltos e braços e pernas
Dribles e enganos
E a dança de mão em mão

O grande momento se anuncia
O corpo em flexão
Sob grande concentração

Lá vai, lá vai para a cesta
Rumo certo no itinerário
Oooooou.... Toco! Ah, não!

Tum tum
Bola no chão
Bola na mão

Dez homens em ataque
E marcação, com a bola
Indo e voltando do chão.

Lançada por um desastrado
Ela acertou o casal de namorados
Que nada via da competição.

Do chamego na arquibancada
Ao susto pela bolada
Aquietaram a disposição.

Bola temperamental!

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Xeque-mate


Organizemos as peças no tabuleiro. Cada qual em seus devidos lugares. As minhas daqui, as suas de lá. Os espaços marcados, pensados e traçados para ser um palco de batalha limitam nossos movimentos. Você quer o meu rei e eu quero o seu: linhas cruzadas. É um jogo secular, sempre sendo redescoberto.
Pois bem. Já que está com as peças brancas, pode começar o jogo. Uma... duas casas em minha direção. Paro, penso e avanço também. Do alto da torre, miro o seu exército. Não há como não sentir um aperto... Deve ser a aflição comum de quem entra em campo. Mais um lance daí e uma reação de cá. Uma passagem daqui e outra de lá. Um pastor? Que susto! Já tinha ouvido falar nessa técnica. Você é mais experiente que eu, rapidinho me dominou: xeque-mate!
Não estou frustrada. Sinto-me desafiada e quero continuar. Troquemos as peças de lado. Agora a branca sou eu e a regra me permite iniciar o embate. Era mesmo o que eu queria fazer desde o começo. Com meu cavalo, vou a galope, num salto invisto sobre o seu bispo e abro novo caminho. Nossos peões se entregam, matam e morrem.
Sei do risco de nova derrota, mas ela importa menos que a partida. Falta-me jeito para o jogo, mas mostro coragem aos meus soldados e redobro a atenção: cada deslocamento muda todas as possibilidades do futuro. “Há neste campo algum rio?” O meu rei está com sede e os peões, ocupados em protegê-lo, não podem sair agora a procurar água. “Há neste campo algum rio?”, o rei volta a perguntar. Talvez seja bom fazermos uma pausa, porque o rei tem movimentos curtos e não está podendo mais suportar. Você pensa se deve me conceder a pausa e eu desisto dela. Ajeito-me na cadeira. Observo os seus movimentos em cada lance e devo confessar que não os compreendo bem. Ameaço tocar uma peça e olho os seus olhos, à espera de um sinal que me estimule a avançar ou me faça recuar.
Seu rei está ficando só. E não é que ele está a fugir de mim? A brincadeira começa a ficar divertida e eis que sua rainha me cerca. Não acredito! Onde é que estava essa peça que eu não via? Chegou veloz em linha reta, pela diagonal, e acabou com toda a estratégia que eu estava começando a armar. Achei que estivesse aprendendo. Sorte que esta morte é de mentirinha.
Desmanchemos tudo e vamos de novo. Só mais uma vez, eu imploro. Não que eu queira vencer, quero mesmo é, peça a peça, capturar você.