quinta-feira, 26 de maio de 2011

O lugar


Já vou.
Não tenho malas para a bagagem,
Mas vou.

Eu disse a alguém pra onde vou?
Alguém que tenha ouvido, me diga,
Porque o trem já apita.

Tuuuuuuu...
– Venha, menina!
– Já vou!

Não vai dar tempo de esperar
Alguém se lembrar do tal lugar.
Vou chorar.

Será a partida sempre assim,
Doida, doída, rasgando pedaços da gente
Com gente que fica na despedida?

– Bilhete!
– Tenho não, moço!
O moço nem se importou.

Agora começa a passar tudo
Como na poesia do Bandeira
Cerca, bicho, povo, ponte, poste...

Ah, liberdade!
Que bom que não conseguimos as malas!
Ah, surpresa!

Mas parece que alguém disse alguma coisa
O lugar...é sobre o lugar...
Ah! Deixe o lugar pra lá!

terça-feira, 24 de maio de 2011

Panos e tendas

Mulheres do oriente,
Teríamos mais coragem
Não houvesse tantos panos
A cobrir-nos o rosto?
Vossos tecidos
Meus limites medidos
Encontram-se no fim.

Falamos com o olhar.
As mãos descobertas
Falam também.
Palavras? Tenho muitas,
Que não sabem dizer-se
E me assustam.
E me calam.

De dentro de vossas tendas
Sabeis quanto sobre mim?
Eu, que não sei lidar
Com jóias raras e véus
Assim finos,
Ao som de tambores,
Permito-me dançar.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Sabãozim

O tempo passa na grande saboneteira. Nem parece que ela também passa no tempo. Só não passa no espaço: no mesmo lugar em que a frágil muda foi entregue à terra, prendem-se hoje suas robustas raízes, que souberam bem contornar obstáculos quando pequeninas. Lentamente foram se fazendo mais respeitadas pelas pedras e os ramos subterrâneos, que iam ficando cada vez menores diante da realeza que se alongava pelo solo e pelo ar.
O velho menino sempre a chamou de sabãozim. Assim ouviu seu pai nomeá-la quando chegou com a plantinha na fazenda há sabe-se lá quantos anos. Muitos anos. O pai era um jovem vigoroso e o menino hoje já nem consegue mais correr por causa dos ossos que lhe pesam. Mas a sabãozim, imensa, é ainda frondosa, com a copa redonda e grande como nunca, a sombra se esparramando pelo pasto.
            Protegendo-se nessa sombra, está sentado agora o velho. Acomoda-se no pé da sabãozim e descansa seu tronco no tronco dela. Tira o chapéu e saem em disparada os passarinhos que faziam folia nos galhos da amiga. O menino os observa até sumirem longe, como se levassem o passado embora em suas asas. Mas ele permanece no barulho da água no lugar onde o rio dobra. Trova intermitente.
            A saboneteira caminha os caminhos do menino no ponto em que nela eles se cruzam. Como agora, em que ampara o dorso do velho, que pensa estar apenas acobertando-se do sol, quando na verdade veio andar errante por uns minutos nas memórias tantas. Está cansado e conclui que não aceitaria viver tudo de novo, apesar do muito riso que teve, dos muitos abraços e afagos, dos amigos, dos amores, das peraltices, das crianças que educou, dos suores e das recompensas. Não quer nada mais de novo, aceita o ciclo da vida. Aceita ou é resignado – sabe-se lá – porque tanto já foi levado mesmo e não acredita em retorno. Passou.
            O velho menino está cansado. A camisa azul de brim tem o tecido raleado e já se desfiando, mas ficou bem mais confortável do que quando nova. A calça longa dobrada nas canelas deixa à mostra a pele branca e peluda. À mostra para o vento, que sempre acariciou aquela criança, que o sente com mais carinho agora.
            __ Conheço você, rapaz, desde antes de nascer __ assim falaria o vento, se pudesse se comunicar em palavras. O velho recosta a cabeça no dorso da sabãozim, vira o rosto e sente a aspereza lisonjeira de seu tronco. O coração tem menos energia que no tempo em que a escalava e nela se pendurava, derrubando-lhe as folhas no agito. Se fosse setembro, então, nem precisava sacudir muito. As folhas pareciam cair só de serem olhadas. E quando o vento batia mais forte, era aquela belezura a chuva de folhas. Depois vinha a fase tristonha, da árvore peladinha, e o menino olhava ansioso cada dia se o verde bebê já começara a rebrotar.
            Ele olha para o alto e sorri. Reconhece o amor agora, porque antes era inquieto demais para pensar nessa amizade.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Oração

Se eu tiver dez vidas,
Que em todas elas,
Senhor,
Eu o reconheça.
Não me confundam,
Os falsos santos
Ou falsos profetas.

Se forem mil,
Que por nenhuma,
Eu passe fora
Da sua presença.
Na aura de seu fogo,
Não seja eu cega.
Não seja morta.

Mas se todas
São uma apenas,
Só esta vida
Minha vida é.
Do infinito passado
D’onde venho
Ao infinito porvir.

Ai! Que não se desprenda,
Senhor, de suas mãos,
O meu fio condutor.
Para que eu me lance
E não me perca,
Que eu me alcance
E jamais o esqueça.