quinta-feira, 28 de abril de 2011

Uma canção

Dedos ao piano
Quebrando silêncio
Montando o espelho
Da solidão.

O sopro
Na flauta
Convida-me:
- Vem!
- Não sei
Se vou.
- Vem!
Vou.

As cordas
Vibrando em mim,
Suspensa nelas.
Sem braços.

Não cantes.
Por favor,
Não cantes
Em dó.
Deixa-me ouvir-te
Em sol
E mi.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

A poesia do cello

Lá está ele. Inerte corpo avermelhado, luminoso como se refletisse a luz do entardecer. Pinho e mogno incorporados, leveza e dureza, maciez e resistência. O braço escuro, de noturno ébano, sustenta o canto ainda mudo.
Lá está ele, em madeiras por cujos vasos já não corre mais a seiva. Agora, tem nervos expostos, fios tensos. Madeiras apropriadamente secas, de árvores derrubadas em tempo certo, talhadas por mãos de habilidoso lutaio. O violoncelo que ora é apresentado foi adquirido por Maurício de um restaurador paraense, que acreditva ser aquele um instrumento de origem européia, provavelmente construído no século XVIII, uma época em que lutaios não utilizavam estufas como hoje e que todos os homens trajavam preto para assistir a um concerto.
Considerando sua qualidade e as referências deixadas pelo ex-proprietário, que o vendeu contando ao restaurador histórias de relíquias de família, Maurício indaga a imaginação sobre onde e por quanto tempo viveram as árvores que originaram o corpo deste cello. Alguma na América, outra talvez na África, outra bem longe dos trópicos. Elas provavelmente resistiram por séculos até serem derrubadas, foram estocadas e supervisionadas outono após outono, mais um outono e talvez ainda outro, até poderem unir-se no formoso instrumento que lhe chegou às mãos. A origem desconhecida e fantasias sobre sua história encantam Maurício sobremaneira. Esse músico perde-se a sonhar sobre os caminhos que há de ter percorrido seu cello. Teria ele integrado orquestras em concertos por muitos países? Teria algum dia estado em Bayreuth, executando obras de Wagner? Quantos homens e mulheres já teria feito se emocionar com as suítes de Bach ou os contrastes refinados de Villa-Lobos? Que mãos já teriam provocado seu canto?
Aqui está ele. Parece insinuantemente só aos olhos dos que começam a ocupar o teatro São Joaquim. Mas não está só. A ausência de Maurício preenche-o com desassossego. Todos os demais instrumentos da orquestra encontram-se em repouso sobre o tablado, mas somente sobre este violoncelo está o foco de fina luz. Pela primeira vez, ele será o solista de um concerto. Foram meses de ensaio, com a orquestra ou sem ela, mas sempre com Maurício, que não conheceu as poucas mãos que já o manusearam, já o comoveram ou decepcionaram. Essas memórias, incomunicáveis, pertencem apenas à sua alma, um pedacinho de madeira cravada em suas vísceras e que distribui por todo o corpo as vibrações das cordas.
Maurício tem os olhos da cor da terra, de cujo seio as raízes absorvem o vigor da existência. Eles são vastos como ela, abrigam tesouros e vidas tantas, incontáveis e indecifráveis. Tem estrutura forte, ombros largos, grande tórax e a pele n’acorde folhas caducas. Folhas caem como notas, descem leve,
                                           gra
                                                  v
                                                      i
                                                         da
                                                             de
                                                           notas graves
                                                      que vão ao encontro da mãe,
                                           em ocreada cor de saudade.
Seus cabelos são escuros como as fibras do ébano por onde resvalam seus dedos, planejada e naturalmente.
Os músicos começam a ocupar o palco. Todos os instrumentistas a postos. Entra o regente e cumprimenta formalmente a platéia, que não inclui personalidades políticas como ocorre nas grandes ou notórias apresentações. O violoncelista-solo senta-se, tem o corpo leve como o de um felino. Toma o violoncelo e, entre seus joelhos, abriga as cavas do instrumento. O maestro ergue os braços, tem os olhos fixos nos olhos de Maurício, que altiva o tronco. O cello inspira. Ele agora é uma extensão do corpo de seu instrumentista. Entra na alma dele, ama com o amor dele e vai cantar com o coração dele. Sua história não existe mais.
Maurício envolve o braço do cello em sua mão. As cordas perturbam-se. O arco se aproxima. O cello expira: declama sua poesia, revela sua afeição. É por Maurício que a crina do arco vem.
...E vai
Volta logo
Vai de novo, sem intervalo
Até onde ordena
A partitura,
O destino escrito
O sentimento transcrito
Em pautas
Linhas, cordas.
Um fio é a vida.
A orquestra – pequena e imponente orquestra de câmara – entra com violência, integrando-se à melodia e aos desenvolvimentos. Outras cordas, muitos sopros, percussão. Os solistas integram-se a ela, separam-se sob ouvidos atentos, voltam a integrar-se. Eles têm duas mãos e um corpo, de madeira e coração.
Que sensação melhor pode ser a de experimentar um átomo do que seja ser Deus e estar em comunhão com ele? Os intérpretes vivem o real e o fantástico, em perfeita simbiose. E como o fantástico também é real, Maurício e o cello provam o gosto da polipresença. Ora encontram-se no mesmo mundo chão de madeira e alvo de atenção, ora encontram-se no mesmo mundo dos sentidos, mas nunca no mesmo mundo de suas saudades e imaginações. Essa exclusividade – ou solidão – é o que faz deste cello, o único cello, e de Maurício, o único homem.

*Este conto recebeu o prêmio Célia Câmara em Literatura, no 14º Concurso Sesi Arte Criatividade - 2004.

terça-feira, 19 de abril de 2011

A falta

É cheio de quê,
O vazio?
Qual contorno
O delimita?
Quando vais,
Ele fica.

Movimenta-se como,
A falta?
Como revira-me
Assim?
Ela não chega
Mas fica.

De que matéria é feita
O que nem sei
Se é perda ou vão?
Ela fala
- Estranha língua -
Entendo nada.

Como pode
O vazio
Tão astuto ser?
Percebe o abandono
E vem sorrateiro
Me preencher.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Cores, flores e abelhas

Após as primeiras postagens neste blog, recebi de algumas amigas a sugestão de colocar nele mais cores para “realçar” o conteúdo. Por mim, o fundo branco estava indo bem a princípio, mas confesso que os pedidos fizeram com que eu passasse a sentir a falta que eu não sentia.
Gostei da mudança, nem tanto pelo novo design, mas por sua razão de ser. As ações humanas só fazem sentido se transformarem quem as produz, se retornarem com uma re-significação. Isso! Meus poucos e queridos leitores estão me transformando e essa simbiose há de render bons frutos. E por falar em cores, trago hoje um poema com flores:

Abelhas

Há uma colméia
Cá dentro de mim.

Abelhas operárias
Voam longe
A trabalhar.
Voltam com doce
E me tocam
As leves patinhas.

Voltam cansadas.
E eu sobrevivo.

Caminhando hoje
Reencontro eu,
Flores.
As abelhas fazem festa
Voam, zumbem
Agitadas.

Eu, quase imóvel
Permaneço.

Tantas cores e o perfume
Tanto mel
A me escorrer.
Silêncio. Shhhhhh...
Não devemos nos mover.
As abelhas picam.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

O novelo de Alice


O novelo de linha caiu. Foi rolando e se desenrolando pela sala. Alice deitou-se no tapete, esticou o bracinho magro, pegou o novelo e o entregou à mãe.
– Enrole a linha que se soltou, Alice. Se não enrolar direitinho, vai embaraçar.
Alice passou então a linha azul em círculos pelo novelo, acompanhando seu curso original, bem lentamente, bem bonitinho. Perfeito.
O momento lhe veio à mente com saudade.
Saudade não do passado, mas simplesmente do tempo quando não era preciso pensar que houvesse o tempo. O que terá mudado? Alice, os relógios, o mundo ou as pessoas todas, todas ou quase todas?
Alice hoje é uma mulher reduzida e encadeada pelo tempo. Ele é feroz e exigente. Ela o sente bafejando em seu pescoço a todo instante, a incitá-la, a provocá-la, a movimentá-la.
– Onde estará, tempo, aquela sua mansidão?
Algumas vezes, a vontade de Alice é parar. Mas um dia permitiu-se ser submissa e não consegue mais desvencilhar-se do tirano, que ordena a todos, controla-nos, impõe-nos os limites. Foi tão lento e sutil o abraço, tão gentil o envolvimento, tão cheio de gozo o momento em que Alice entrara na engrenagem do mundo. Fascinante mundo da produção e do poder, da troca e do brilho. Tudo balela.
Hoje, cá está Alice, escravizada no funcionamento das rodas dentadas. Ela não consegue mais conviver com o amigo que a acompanhava nas fantasias da rua e da terra, amigo que não se mostrava, senão nas horas mais belas... o raiar da manhã, o queimar dos ombros, o corar do horizonte. Horas que Alice nem percebe mais. O tempo enfurecido só lhe fala através do despertador, dos dígitos do celular e da tela do computador.
– Corre, corre. – É tudo o que ele hoje lhe diz.
Novelos de linha não caem mais, porque a mãe carinhosa o tempo também lhe tomou. Alice não sabe correr seus dedos em agulhas de crochê – coisa morosa – e não suja mais os pés de terra. As ruas estão cobertas de asfalto coberto de carros cheios de alices apressadas, mulheres de homens apressados, mães e pais de filhos resistentes. Sobreviventes. Até quando? Até como?
Alice pensa de novo em parar. Mas todos circulam tão ligeiramente, que ela receia se machucar. Pode ser atropelada, esmagada, pisoteada. Não. Melhor não ousar, melhor continuar. As correntes vão se arrochando, as marcas se aprofundando, mas Alice vai prosseguindo. Corre disposta a prolongar-se até o dia em que tiver de partir da vida para algum lugar onde o tempo seja novamente pleno ou não seja nada mais. Nunca mais.
E no lance pequeníssimo desse momento, Alice se dará conta de que o tempo nunca deixou de ser manso, nem amigo. Ela não sabe que o tempo chora ao vê-la sentindo-se amarrada nas linhas dos novelos que continuam a cair e que ela não vê, não se curva para recolher.