quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Poema em construção

                                   

Sou um poema em construção
Do poeta de infindável escrever,
Que poderia ter-me feito
Poesia concreta,
Mas me escreve versos soltos,
Em rascunhos.

Sou um poema que seria,
Que poderia, falaria.
E sendo assim inconclusa,
Rabisca-me todos os dias,
Pedindo que eu cante uma poesia
Que lhe seja mais bonita.

Ah, meu poeta, não desistas
De em mim escrever-te,
Embora saibamos ser eterna
Essa minha imperfeição,
Posto ser também sem fim
A tua inquietação.


segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Bailarina

Na grande praça, ela dançava.
Descalça na grama, soltava os braços e dava largos passos, exibia saltos e rodopios. Nada de improviso e também não tinha bebido, mas embevecia o rapaz que, observando aquilo, abaixou o livro que lia, tirou da face os óculos e toda a paisagem se alterou, o canto dos pássaros se calou e a algazarra de crianças se acalmou. Morria e renascia o cenário em que ele se inseria e onde agora só existia a moça que ele via.
Na grande praça, ela dançava. A princípio ele pensou que se tratava de mulher ensandecida. Mas a  saia longa e branca passava por ele com tanta graça, que a sandice em juízo se fazia. Ele tinha um compromisso? Não sei, mas a hora já passou.                                    
E ela dançava. A fronte em riste, para o alto à direita. Os dedos alongados querendo pegar o inalcançável. Ritmada, voltava-se ao horizonte e descia o olhar ao chão. A bailarina, entre as plantas, sumia e reaparecia. Ao jovem voltou o tempo das árvores em que ele subia e onde se escondia. Naquele instante desejou possuir a dançarina, para que a infância e a velhice, que ele ainda não conhecia, se transfigurassem num dia, aquele dia de fantasia.
Na grande praça, ela parou. Parou em frente ao rapaz extasiado no banco. Olhos nos olhos, ela ofegante, estendeu a ele a sua mão. Era um convite à dança, mas ele não foi. Preferia continuar expectador solitário. Deleitava-se assim, nos movimentos dela e ela, num sopetão, queixo ao alto, abriu os braços de novo como se fosse alçar um vôo, dobrou a perna esquerda, pôs o joelho diante dele e a grande saia não parava de mostrar-se viva, no vento frio que fazia.
Ela ergueu os braços unindo as mãos, ele fechou os olhos e o livro. Reabriu os olhos e, então, a vida na grande praça foi retomando sua atmosfera própria que havia desaparecido no minuto de uma poesia, aquela que ele lia.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Cerca

                                                                     
         
Ser que em si cerca
O chão já pisado
Protege-se e cuida
Das dores de sempre
Da asa quebrada.



 

Imagem: portugues.torange.biz 

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Eu não gosto de...

Enfim, estou oficializando minha participação na brincadeira da ‘lista bombardeável’, que está envolvendo uma turma legal de blogueir@s. A convite da escritora Carla Ceres, autora do agradabilíssimo blog ‘Algo além dos Livros’ http://carlaceres.blogspot.com/, devo apresentar uma lista com 10 coisas de que não gosto e, conforme a regra, escolher 10 amigos para fazer o mesmo.
Pensar um pouquinho no que me incomoda e procurar as imagens foi um trabalho agradável, tira a gente da rotina e faz lembrar aqueles cadernos que os adolescentes dos anos 80 faziam com perguntas, para conhecer mais os amigos nas respostas deles e também dar-se um pouco a conhecer. Legal! Agora o caderninho é virtual e o que pude perceber nas listas que visitei é que as pessoas têm muitas insatisfações em comum: nossa indignação, por exemplo, com a injustiça – nas várias formas em que a injustiça pode se manifestar . Tem também as divertidas diferenças... uns amam o que outros detestam, mas felizmente essa parte fica na ordem gastronômica e nas escolhas pessoais que não prejudicam as outras pessoas (aliás, é o colorido da vida e a sobrevivência. Um viva às diferenças!).
Amigos que convido para continuar a brincadeira
Cláudio Marques – http://cerradania.blogspot.com/ 

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Eu não gosto de

Covardia 
 


Cozinhar
 




 Desigualdade social



 Esportes e brinquedos radicais


Abandono
 



Corrupção



     Trabalho infantil  



Motorzinho de dentista


  Música "breganeja" 


 Poluição ambiental







sábado, 8 de outubro de 2011

Bicho da crina

                                                                                   Dom Quixote a Cavalo - Cândido Portinari

Crina de bicho
Foi para um pincel
Bicho selvagem
Resiste ao arreio
Mas sempre vencido
É ele freado
Até a morte
Resignado.

Bicho da crina
Foi para um pincel
Livre nos pelos
Dele arrancados
Cavalga solto
Corre na tela
Esporas e rédeas
Valente, ele nega.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Onde guarda-se o tempo



          Estava tímida e bela aquela tarde, com o colorido distante no horizonte, mas parecendo estar tão perto que Isabel o sentia dentro de si. Ela recebeu com orgulho e pesar os gentis agradecimentos que vieram de seu dileto paciente. Com orgulho porque o admirava de modo elevado e com pesar porque gostaria que viessem à mulher, mas pareciam vir somente à enfermeira.
          Já fazia mais de um ano que Isabel entregava-se a cuidar de Berto numa cadeira de rodas. Podia andar, mas sucessivas quedas preocupavam a família e na cadeira era mais seguro. Berto era um notável otimista. Nunca se sabia quando estava sendo atravessado pelas sombras de tristeza que cobrem, vez ou outra, as pessoas. Dizia repetidas vezes que se sentia muito bem por não estar mais no hospital, onde passara meses e onde, todos os dias, os dias inteiros, seus olhos viam a mesma desbotada paisagem e onde viveu na condição de objeto. Tinha medo das enfermeiras, elas não eram como Isabel. Falavam pouco e eram carregadas de um presságio ruim.
          ͟   Olhe estas pedrinhas... ͟  falou levando o olhar ao chão, enquanto tinha sua cadeira empurrada por Isabel. ͟  Nunca as havia percebido tão bem. Agora, saltam-me à vista.  A saudade de Joaninha é o que me apresenta o mundo.
          E entre risos roucos, continuou:
          ͟   Antes eu tinha Joaninha, não tinha saudades, não via as pedrinhas.
          Berto tinha os olhos perdidos nas pedras, ao longo da estreita rua Pedro Paulo. De um lado, a via, ele e Isabel pela calçada, de outro lado as pedrinhas.
          ͟  Você percebe Isabel, como elas brilham? Você só não pode ver como elas são capazes de aprisionar o meu tempo.
          As pedras levavam a Berto a lembrança de Joaninha caminhando ao seu lado. Ele inclinou a cabeça e, após uma pausa, reergueu o corpo empurrando com as mãos os braços da cadeira.
          ͟   É por isso que quero voltar a Mariana, para rever o órgão da Sé. Eu quero saber qual pedaço do tempo ele prendeu. Talvez me volte alguma frase dela, uma palavra que precise ser redita.
          Berto tinha então 80 anos e pensava muito no que poderia ser interminável. Voltou a fixar os olhos nas pedrinhas e suspirou com desapontamento, ciente da necessidade de resignar-se com o que indignava-se: o fim.
          ͟   Que boa idéia a sua, Isabel, de passearmos por aqui. Obrigado.
          ͟   Ora, não há de quê. E eu também estou gostando muito do passeio.
          ͟   Você poderia me servir um pouco de água?
          ͟   É claro, Seu Berto.
          Isabel entregou-lhe o copo com água e tocou as grandes mãos dele.
          A enfermeira ouvia tudo, todos os dias, atentamente. Mas as afirmações de Berto pareciam ficar flutuando sobre sua cabeça e não caíam. Porém, a Isabel, bastava  ouvi-lo falar e vê-lo gesticular com suas grandes mãos. Admitia sentir certa inveja daquela mulher que ela não conhecera.
          O tempo dispensado aos cuidados de Berto foi agradável e diferente de outros de sua vida. Tempo que recebeu uma sacudida na noite em que seu telefone tocou, trazendo a notícia pelo filho de Berto: no dia seguinte não precisaria amanhecer em sua casa, porque o pai fora hospitalizado com urgência, forte crise de falta de ar.
          Seus momentos com o velho amigo passaram a resumir-se aos minutos do horário de visitas na Unidade de Terapia Intensiva, que ela dividia com os familiares dele. Na ida para o hospital, evitava a rua Pedro Paulo. Mas houve um dia em que a intenção de caminhar por lá fora reconfortante. Isabel apanhou as menores e mais brilhantes pedrinhas para levar a Berto. Colocou-as no bolso, bem escondidas. Queria rever aquele sorriso que tanta falta lhe fazia.
          ͟   Eu não preciso mais ficar aqui.
          ͟  Precisa sim, seu Berto, até ficar muito bem. Olhe, eu trouxe algumas daquelas pedrinhas brilhantes que o senhor me mostrou naquele dia.
           ͟   Joaninha... Isabel, eu não preciso mais das pedrinhas. Você me dá um pouco de água, Isabel?
          Isabel entornou-lhe vagarosamente a água, que mal molhou a boca de Berto e ele começou a desfalecer. Tentaram reanimar seu amigo e conseguiram. Mas, desde então, ninguém mais podia conversar com ele. Isabel continuou fazendo suas visitas, duas vezes por dia, mesmo que somente para olhá-lo e para tocar suas grandes mãos. Uma semana passou-se assim e então tudo acabou.
          As falas de Berto que flutuavam soltas sobre a cabeça de Isabel caíram todas de uma vez. Não havia mais desconcerto sobre o tempo nas pedrinhas, mas a enfermeira decidiu seguir por um caminho diferente daquele que Berto seguia. Voltou a evitar a Pedro Paulo e não assistia mais senhores idosos. Entretanto, a saudade não é dominável assim. O tempo revira na memória os lugares por onde já viajou a alma e a presença de Berto reacendia-se a ela sempre naquela linha rubra e inalcançável que repousa distante nos fins de tarde.

sábado, 24 de setembro de 2011

Águas

Bonita é a tal da água
Serena nos lagos
Ousada nos mares.
Brinca com as crianças
Revigora o verde
Purifica os ares.

É sábia nas pedras
Dos rios, á água.

Generosa chuva
Fúria em tempestade
Menina emotiva
Está sempre a mudar-se.
Esconde-se onde,
Triste na estiagem?

Refazendo-se a água
É gente, na lágrima.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Ilha da fantasia

Olha só, que esquisito:
Gente se achando bacana
Porque tem falsos poderes.
Em nada disso eu acredito.

Acredito em contos de fadas
E em histórias de barquinhos
De piratas que saqueiam mercadores
E decepam indiozinhos.

domingo, 17 de julho de 2011

Flor e ser

Passarinho beijou a flor
Da árvore em dia quente
Passando sobre meu chão,
Lançou pólem. Acidente.

Terra sem pedra ou espinho
terra arada e revolvida
Senti no grão, carinho
Escolhida pra vida

Abracei-o, afaguei
Veio a chuva e me molhou
Abri segredos fecundos
E a sementinha brotou

Estiou e eu dei a ela
O melhor que eu pude dar
Pra que a minha plantinha
Sol nenhum viesse secar

Veio o vento, mas ela
Está n'eu chão enraizada
Deixa cair sobre mim
Flores por ele sopradas.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Só Carola


                                                              Pintura de Tolouse Lautrec            
                                           
Ao chegar à porta de entrada da casa do amigo, onde se encontraria com outros amigos e com os amigos dos amigos, Douglas parou. O som discretamente elegante de seu mocassim brilhante e negro silenciou-se. Os dois ou três segundos em que se postara ali, diante de todos, fizeram-se muitos minutos mais em seus propósitos de mostrar-se e sentir-se observado. Não era esfuziantemente notado como imaginava estar sendo. Mas era assim, em sua fantasia de astro, que vivia e estufava-se.
Só Carola parecia envolver-se na musicalidade que Douglas apresentava nos passos e na fala. Mas a ele não importava saber quem e quantos verdadeiramente se admiravam de alguma coisa. Seu mundo e atenção giravam em torno de sua própria imaginação e de quase mais nada. E, olha, que aquela sua cabeça o fazia de tal forma auto-confiante que qualquer comentário negativo ou jocoso contra sua pessoa sequer era por ele percebido. Mas se algum elogio pipocava a dois metros de distância... caía como dardo mirado nos ouvidos de Douglas e, aí, ele se orgulhava, quase sempre fingindo que não estava a escutar nada.
Suas fantasias de majestade cumpriam-se a cada instante. Estava certo de que já estivessem todos a sentir sua falta e que até haviam ficado meio desarranjados com a sua aparição. Afinal, não era um qualquer aquele que acabara de entrar. Percebia que as mulheres já se aproximavam e que um colega chegava para lhe servir uma bebida. Mas só Carola acreditava no mundo criado por Douglas. Acreditava que todos o considerassem assaz importante e elegante e que todas as mulheres suspirassem por ele – como ela. Carola se esforçava para conseguir continuar ali, porque ela não gostava tanto de gente ou gostava e temia em demasia, mas o fato é que se incomodava de estar com tantas pessoas. Entretanto, sempre embrenhava-se no grupo para estar com Douglas, aquele que fazia de conta estar com todos, mas que convivia somente consigo próprio e amava-se sobremaneira.
Carola achava todos feios e pedantes. Sempre via nos rostos e nos ambientes, um falso glamour. E em Douglas, não. Em Douglas via expansividade sincera. Ele, sim, a ela parecia ser homem fino de verdade. Cada gesto dele, cada palavra bem entonada, fazia brotar em Carola o devaneio de um enredo romântico. Ela não dizia nada, para não revelar a ele que era tão medíocre quanto todos os outros, com a diferença de que não ficava a fingir ser mais. Não se arriscaria a botar máscara para estar diante de Douglas. Afinal, acreditava que um dia se conheceriam de verdade e não ficaria bem inventar aparências.
           Douglas falava muito das novidades da moda, das agendas de gente importante e de carros. Não enganava a ninguém tanta superficialidade, somente a Carola, em sua esfera de mudez envolvida num espaço cheio de vozes, risadas e tilintar de copos e talheres.
E lá dentro da cacholinha dela, tanta coisa diferente acontecendo, ela se escancarando e se escondendo entre espelhos. Poderia se chamar Maria e puxar os homens pelo braço, falar-lhes coisas interessantes; poderia se chamar Custódia e comprar falos de silicone, perfeitos, secretamente; poderia se chamar Amélia e conformar-se numa casa arrumadinha, com tapetinho na entrada dizendo ‘bem-vindo’; poderia se chamar Divina e cometer loucuras, ameaçar, avançar e – caso algo desse errado – gritar, internar-se e acalmar-se; poderia se chamar Esmeralda, ter olhos de jóias raras, receber flores e desprezar amores; poderia se chamar Vilma e desejar ter Maria ou ser Sofia e questionar-se até um dia resignar-se; poderia se chamar Paulinha e falar bem manhosinha e ser sempre menininha dos seus homens papaizinhos; poderia se chamar Simone e exigir amor livre e respeito, falar firme e com razão. Mas era só Carola, simplesmente todas elas, sendo só, só Carola.
E Douglas, quem era? “Quem é ele?”, ela queria saber e questionava-se por quê. “Por que não chega mais perto? Por que não lhe lança um oi”? Talvez ela não quisesse de verdade sabê-lo, para não correr o risco de deixar de ser só, só Carola.
E assim esses dois passaram aquela e passam outras festas. Passam assim a vida. Ela a segui-lo, ele a enamorar-se. Ela pensa que sofre e no sofrimento fantástico vive suas múltiplas partes. Ele pensa que brilha, entre tanta luz se cega, entre as vozes internas se ensurdece e, no escuro, fica a platéia em silêncio para o espetáculo começar. A solidão não é sempre o fim de quem ama, como dissera o poeta, ela pode ser o gozo de muitos que só se encontram nela.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Dose de poesia

Estonteada,
Cambaleando vou.
Olhos perdidos
Por outras bandas vão.

Parece-me, sim,
Que engoli umas palavras.
Eu bebi uma poesia
Em dose desmedida.

Ela deixou-me
Entorpecida.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Logic(a)batimento



Para fazer poesia, um

Para viver o amor, dois

O receio de perder-te, três

Toda a minha saudade,

Conjunto vazio.

Como vazio é o luto

E vazia, a melancolia.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Basquetebol


No molejo do corpo, o atleta
Domina o planeta
Girando em sua mão

Faz que vai para a direita
Corre, quicando a bola,
Matreiro pela esquerda, então

Bola no chão
Volta, volta pro chão,
Deixa o adversário na mão

Saltos e braços e pernas
Dribles e enganos
E a dança de mão em mão

O grande momento se anuncia
O corpo em flexão
Sob grande concentração

Lá vai, lá vai para a cesta
Rumo certo no itinerário
Oooooou.... Toco! Ah, não!

Tum tum
Bola no chão
Bola na mão

Dez homens em ataque
E marcação, com a bola
Indo e voltando do chão.

Lançada por um desastrado
Ela acertou o casal de namorados
Que nada via da competição.

Do chamego na arquibancada
Ao susto pela bolada
Aquietaram a disposição.

Bola temperamental!

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Xeque-mate


Organizemos as peças no tabuleiro. Cada qual em seus devidos lugares. As minhas daqui, as suas de lá. Os espaços marcados, pensados e traçados para ser um palco de batalha limitam nossos movimentos. Você quer o meu rei e eu quero o seu: linhas cruzadas. É um jogo secular, sempre sendo redescoberto.
Pois bem. Já que está com as peças brancas, pode começar o jogo. Uma... duas casas em minha direção. Paro, penso e avanço também. Do alto da torre, miro o seu exército. Não há como não sentir um aperto... Deve ser a aflição comum de quem entra em campo. Mais um lance daí e uma reação de cá. Uma passagem daqui e outra de lá. Um pastor? Que susto! Já tinha ouvido falar nessa técnica. Você é mais experiente que eu, rapidinho me dominou: xeque-mate!
Não estou frustrada. Sinto-me desafiada e quero continuar. Troquemos as peças de lado. Agora a branca sou eu e a regra me permite iniciar o embate. Era mesmo o que eu queria fazer desde o começo. Com meu cavalo, vou a galope, num salto invisto sobre o seu bispo e abro novo caminho. Nossos peões se entregam, matam e morrem.
Sei do risco de nova derrota, mas ela importa menos que a partida. Falta-me jeito para o jogo, mas mostro coragem aos meus soldados e redobro a atenção: cada deslocamento muda todas as possibilidades do futuro. “Há neste campo algum rio?” O meu rei está com sede e os peões, ocupados em protegê-lo, não podem sair agora a procurar água. “Há neste campo algum rio?”, o rei volta a perguntar. Talvez seja bom fazermos uma pausa, porque o rei tem movimentos curtos e não está podendo mais suportar. Você pensa se deve me conceder a pausa e eu desisto dela. Ajeito-me na cadeira. Observo os seus movimentos em cada lance e devo confessar que não os compreendo bem. Ameaço tocar uma peça e olho os seus olhos, à espera de um sinal que me estimule a avançar ou me faça recuar.
Seu rei está ficando só. E não é que ele está a fugir de mim? A brincadeira começa a ficar divertida e eis que sua rainha me cerca. Não acredito! Onde é que estava essa peça que eu não via? Chegou veloz em linha reta, pela diagonal, e acabou com toda a estratégia que eu estava começando a armar. Achei que estivesse aprendendo. Sorte que esta morte é de mentirinha.
Desmanchemos tudo e vamos de novo. Só mais uma vez, eu imploro. Não que eu queira vencer, quero mesmo é, peça a peça, capturar você.
 

quinta-feira, 26 de maio de 2011

O lugar


Já vou.
Não tenho malas para a bagagem,
Mas vou.

Eu disse a alguém pra onde vou?
Alguém que tenha ouvido, me diga,
Porque o trem já apita.

Tuuuuuuu...
– Venha, menina!
– Já vou!

Não vai dar tempo de esperar
Alguém se lembrar do tal lugar.
Vou chorar.

Será a partida sempre assim,
Doida, doída, rasgando pedaços da gente
Com gente que fica na despedida?

– Bilhete!
– Tenho não, moço!
O moço nem se importou.

Agora começa a passar tudo
Como na poesia do Bandeira
Cerca, bicho, povo, ponte, poste...

Ah, liberdade!
Que bom que não conseguimos as malas!
Ah, surpresa!

Mas parece que alguém disse alguma coisa
O lugar...é sobre o lugar...
Ah! Deixe o lugar pra lá!

terça-feira, 24 de maio de 2011

Panos e tendas

Mulheres do oriente,
Teríamos mais coragem
Não houvesse tantos panos
A cobrir-nos o rosto?
Vossos tecidos
Meus limites medidos
Encontram-se no fim.

Falamos com o olhar.
As mãos descobertas
Falam também.
Palavras? Tenho muitas,
Que não sabem dizer-se
E me assustam.
E me calam.

De dentro de vossas tendas
Sabeis quanto sobre mim?
Eu, que não sei lidar
Com jóias raras e véus
Assim finos,
Ao som de tambores,
Permito-me dançar.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Sabãozim

O tempo passa na grande saboneteira. Nem parece que ela também passa no tempo. Só não passa no espaço: no mesmo lugar em que a frágil muda foi entregue à terra, prendem-se hoje suas robustas raízes, que souberam bem contornar obstáculos quando pequeninas. Lentamente foram se fazendo mais respeitadas pelas pedras e os ramos subterrâneos, que iam ficando cada vez menores diante da realeza que se alongava pelo solo e pelo ar.
O velho menino sempre a chamou de sabãozim. Assim ouviu seu pai nomeá-la quando chegou com a plantinha na fazenda há sabe-se lá quantos anos. Muitos anos. O pai era um jovem vigoroso e o menino hoje já nem consegue mais correr por causa dos ossos que lhe pesam. Mas a sabãozim, imensa, é ainda frondosa, com a copa redonda e grande como nunca, a sombra se esparramando pelo pasto.
            Protegendo-se nessa sombra, está sentado agora o velho. Acomoda-se no pé da sabãozim e descansa seu tronco no tronco dela. Tira o chapéu e saem em disparada os passarinhos que faziam folia nos galhos da amiga. O menino os observa até sumirem longe, como se levassem o passado embora em suas asas. Mas ele permanece no barulho da água no lugar onde o rio dobra. Trova intermitente.
            A saboneteira caminha os caminhos do menino no ponto em que nela eles se cruzam. Como agora, em que ampara o dorso do velho, que pensa estar apenas acobertando-se do sol, quando na verdade veio andar errante por uns minutos nas memórias tantas. Está cansado e conclui que não aceitaria viver tudo de novo, apesar do muito riso que teve, dos muitos abraços e afagos, dos amigos, dos amores, das peraltices, das crianças que educou, dos suores e das recompensas. Não quer nada mais de novo, aceita o ciclo da vida. Aceita ou é resignado – sabe-se lá – porque tanto já foi levado mesmo e não acredita em retorno. Passou.
            O velho menino está cansado. A camisa azul de brim tem o tecido raleado e já se desfiando, mas ficou bem mais confortável do que quando nova. A calça longa dobrada nas canelas deixa à mostra a pele branca e peluda. À mostra para o vento, que sempre acariciou aquela criança, que o sente com mais carinho agora.
            __ Conheço você, rapaz, desde antes de nascer __ assim falaria o vento, se pudesse se comunicar em palavras. O velho recosta a cabeça no dorso da sabãozim, vira o rosto e sente a aspereza lisonjeira de seu tronco. O coração tem menos energia que no tempo em que a escalava e nela se pendurava, derrubando-lhe as folhas no agito. Se fosse setembro, então, nem precisava sacudir muito. As folhas pareciam cair só de serem olhadas. E quando o vento batia mais forte, era aquela belezura a chuva de folhas. Depois vinha a fase tristonha, da árvore peladinha, e o menino olhava ansioso cada dia se o verde bebê já começara a rebrotar.
            Ele olha para o alto e sorri. Reconhece o amor agora, porque antes era inquieto demais para pensar nessa amizade.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Oração

Se eu tiver dez vidas,
Que em todas elas,
Senhor,
Eu o reconheça.
Não me confundam,
Os falsos santos
Ou falsos profetas.

Se forem mil,
Que por nenhuma,
Eu passe fora
Da sua presença.
Na aura de seu fogo,
Não seja eu cega.
Não seja morta.

Mas se todas
São uma apenas,
Só esta vida
Minha vida é.
Do infinito passado
D’onde venho
Ao infinito porvir.

Ai! Que não se desprenda,
Senhor, de suas mãos,
O meu fio condutor.
Para que eu me lance
E não me perca,
Que eu me alcance
E jamais o esqueça.


quinta-feira, 28 de abril de 2011

Uma canção

Dedos ao piano
Quebrando silêncio
Montando o espelho
Da solidão.

O sopro
Na flauta
Convida-me:
- Vem!
- Não sei
Se vou.
- Vem!
Vou.

As cordas
Vibrando em mim,
Suspensa nelas.
Sem braços.

Não cantes.
Por favor,
Não cantes
Em dó.
Deixa-me ouvir-te
Em sol
E mi.